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Governo adota no SUS pílula que previne HIV em grupos de risco

 

Folha de S.Paulo
JornalistaCláudia Colucci
O Ministério da Saúde anunciou nesta quarta (24) a incorporação no SUS de tratamento que previne a infecção pelo HIV. A terapia será ofertada a grupos mais expostos ao risco, como homens que fazem sexo com homens e profissionais do sexo.
O tratamento consiste na administração diária do antirretroviral Truvada,que é uma combinação de outros dois medicamentos (tenofovir e emtricitabina), em pessoas não infectadas pelo HIV que mantêm relações de risco.
No primeiro ano, o tratamento estará disponível para 7.000 pessoas, número que foi tido como insuficiente por especialistas durante discussão sobre o assunto na Conitec (Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias), que recomendou a terapia.
Segundo eles,o cálculo de 7.000 só atingiria 3,8% dos homens gays e bis —trans, travestis e heterossexuais não entrariam nesse cálculo.
Estimativa feita nos EUA prevê que um quarto dos homens que fazem sexo com homens teriam recomendação para usar a a chamada“prep” (da sigla em inglês para profilaxia pré-exposição).
Se a mesma proporção fosse usada no Brasil, mais de 220 mil pessoas deveriam receber a terapia.
Desde 2012 a OMS (Organização Mundial de Saúde) recomenda a oferta de prep para casais sorodiscordantes(ou seja,em que um dos parceiros tem HIV), homens que fazem sexo com homens, profissionais do sexo e transgêneros (travestis e transexuais).
As taxas de prevalência de HIV são mais elevadas nesses sub grupos populacionais (varia de 5% a 10%), quando comparadas às taxas na população geral (0,4%).
No anúncio de ontem,o ministério não informou quais grupos de risco terão prioridade na indicação da droga. Para isso, segundo o órgão, profissionais da saúde vão realizar uma avaliação da vulnerabilidade do paciente.
“Uma série de critérios deve ser levada em conta antes da indicação da prep, como o número de parceiros sexuais, os outros métodos de prevenção utilizados,o compromisso com a adesão ao medicamento, entre outros”, afirmou Adele Benzaken, diretora do Departamento de DST, Aids e Hepatites Virais do Ministério da Saúde.
Para o infectologista Esper Kallás, professor e pesquisador da USP,a quantidade inicial prevista de comprimidos no Brasil não é problema porque a oferta poderá ser redimensionada conforme a demanda.“A incorporação é um grande avanço. Há dez anos, éramos chamados de loucos, antiéticos, havia preconceito.
Ver isso sendo transformado em realidade é show.” O investimento inicial do Ministério da Saúde será de US$ 1,9 milhão na compra de 2,5 milhões de comprimidos, o que deve atender a demanda pelo período de um ano.A distribuição da terapia no SUS começa em 180 dias.
Mario Scheffer, professor do departamento de saúde preventiva da USP, afirma que,pelo fato de a patente do Truvada estar em domínio público, fica aberto o caminho para os genéricos,oque reduziria o custo.Ainda cabe recurso da farmacêutica Gilead, fabricante da droga.
Segundo ele, muitos dos grupos vulneráveis ainda não foram sequer informados sobre a distribuição ou do que se trata a prep. “Vai ter campanha dirigida aos mais vulneráveis informando sobre o novo direito? Faz tempo que o Ministério da Saúde censurou campanhas dirigidas aos homossexuais e profissionais do sexo”, diz Scheffer.
EFEITOS COLATERAIS Nos últimos anos,a discussão sobre a oferta da prep no SUS gerou questionamentos sobre a possibilidade de a terapia criar resistência ou causar efeitos colaterais em pessoas saudáveis, que, dificilmente, seriam convencidas a fazer uso diário de um remédio.
Para Esper Kallás, a profilaxia provoca poucos efeitos colaterais. “São facilmente administráveis.” Ele diz que outra grande vantagem da prep é trazer essas pessoas para o centro de assistência.
“Não é só dar o remédio e prevenir os efeitos colaterais, é dar aconselhamento sobre o uso da camisinha e o teste de HIV com frequência,reduzir o número de parceiros. É uma ação em saúde pública.” Para Kallás,a relação de custo e benefício da droga é altíssima porque, ao prevenir uma infecção nessa população vulnerável, várias outras pessoas estarão sendo poupadas do risco de se infectar com o vírus.
A prevenção será ofertada nos serviços do SUS que já trabalham com prevenção do HIV. Segundo o ministério, a prep só será indicada após testagem do paciente para HIV, uma vez que ela é contra indicada para pessoas já infectadas pelo vírus.Nesses casos, ela pode causar resistência ao tratamento.
Atualmente,827 mil pessoas vivem com HIV/Aids no país. Desse total, 372 mil ainda não estão em tratamento, sendo que 260 mil já sabem que estão infectadas e 112 mil pessoas desconhecem o fato.
Coma nova medida, o Brasil se torna o primeiro país da América Latina a utilizar essa estratégia de prevenção como política de saúde pública.